O presente artigo faz observações sobre os recentes tuítes de Raphael Lima do canal “Ideias Radicais”. Ele visa trazer para debate uma questão de comprometimento, ao assumir o carácter de determinado juízo sobre o mundo.

“A escravidão era, e em muitos lugares (Mauritânia por exemplo) ainda é, uma instituição completamente repugnante.

Querer equacionar isso com o estado para o público geral é pedir pra ser visto como desconectado da realidade.”

“Equacionar”, na forma posta está sobre disputa o que Raphael Lima busca ao empregar o equacionar, se seria uma simples relação de intersubstitutibilidade, ou se seria uma relação de equacionar em uma relação de total sinonímia, como em uma expressão do princípio Salva Veritate de Leibniz:

“Two terms are the same if one can be substituted for the other without altering the truth of any statement. If we have A and B and A enters into some true proposition, and the substitutions of B for A wherever it appears, results in a new proposition which is likewise true, and if this can be done for every such proposition, then A and B are said to be the same; and conversely, if A and B are the same, they can be substituted for one another as I have said.”[1]

Tendo em vista que a hashtag levantada era “#escravodoestado”, tomarei como verdade que a relação entre o que seria equacionado aqui seja a declarada pela sentença “A relação do contribuinte com o estado é escravidão”. Nessa perspectiva, ignorando um sentido de sinonímia poética ou de associação psicológica, podemos tratar como não completamente verdadeiro que “A relação do contribuinte com o estado” seja “Escravidão”, pois, poderia ser apontado com facilidade um caso onde há escravidão sem a ocorrência do estado. Sendo exposto que o equacionado não se trata de uma ocorrência de uma sinonímia total, e sim de uma relação de sinônimos contextuais, trataremos portando partindo não de uma completa intersubstitutibilidade, analiticidade, mas sim de uma relação de substitutibilidade contextual, que estaria atrelada também à uma explicação.

Relembrando que ele trata do ato de “equacionar” as frases “A relação do contribuinte com o estado” e “escravidão” como vistas pelo publico em geral como fora da realidade, e partindo da relação contextual de substitutibilidade. Temos que seria necessário a explicação dessa substitutibilidade entre as frases, pois se é ponto de concordância entre os ancaps que “A relação do contribuinte com o estado é escravidão”, se você se vê como libertário você deveria expor as razões por trás do que é comprometido com essa afirmação. Se o debate público é contrário à verdade, então aja não conforme o debate público, mas conforme a convicção que tens de verdade.

Raphael Lima, ao confrontar a realidade em que dispõe a relação que ele próprio levanta sobre o ambiente de discurso público com a sentença “A relação do contribuinte com o estado é escravidão”, se preferir abdicar da sentença para se dispor ao debate abdica também do que é ponto comum em libertários em prol de ser aceito no debate público.

“É muito similar a extrema esquerda, que quer dizer que quem não concorda com eles em literalmente tudo é um nazista”.

Talvez de fato seja, mas não sei em qual sentido você pretendia expor essa relação de similaridade. Mas é um ponto que concederia para você se com isso você pretendia dizer algo como:
“A convicta esquerda crê que todos que não concordem com eles sejam nazistas. E não está disposta a abrir mão dessa convicção”.

“É pedir pra não ser ouvido e dispensado como um maluco completo.”

Esse é o ponto de vista político, o ponto de vista de alguém que já pretende se enquadrar ao discurso. O ponto de vista de um convicto, um comprometido com seus ideais, seria justamente a exposição de que sua crença significaria mais do que sua posição em um debate, que seu comprometimento é com seus valores, não com uma possível visão sobre o sujeito que clama que “A relação do contribuinte com o estado é escravidão” é negativa.

“De todas as formas que a gente poderia explicar liberdade e mostrar para as pessoas o absurdo que o estado é, dizer que hoje você pagar imposto para financiar o SUS é equivalente a ser escravizado, separado da sua família, enviado para outro continente e obrigado a trabalhar até a morte, sendo tratado como uma propriedade, é uma das piores rotas que eu consigo imaginar.”

A visão de explicação que Carnap defende é “The task of explication consists in transforming a given more or less inexact concept into an exact one or, rather, in replacing the first by the second”[2], e, se você concorda em uma substitutibilidade contextual sobre “A relação do contribuinte com o estado é escravidão” você concorda com ela sendo essa uma explicação inexata, mas assim como os libertários, se compromete com ela. E assumindo a veracidade, como movimento, seria papel dos libertários não se sujeitarem a compreensão de um ambiente de discurso, mas tentar adequar o ambiente de discurso ao conjunto de crenças que compreende o libertarianismo.

Inexata pois escravidão abrange um senso de algo imperando sobre um sujeito, mas não no sentido que o Raphael Lima aponta, e sim que a escravidão compreende essa relação, desvinculada de um contexto do estado, eu posso alegar aqui que a servidão militar obrigatória poderia ser em exatidão o “ser escravizado, separado da sua família, enviado para outro continente e obrigado a trabalhar até a morte” que o Raphael Lima levanta, mas eu, sem me preocupar com qualquer vaguidade aqui, alego que a escravidão é justamente o imperativo da servidão. Veja que agora deve ficar claro que a afirmação da relação de substitutibilidade de contribuinte com um escravo não se comprometeria com a totalidade do que é ser escravo, somente o que seria na visão aristotélica a essência do que seria ser escravo. Trazendo uma noção sobre próprios conceitos, para Aristóteles, é essencial ao homem ser racional, mas acidental ter duas pernas. Há então uma diferenciação do que seria o essencial se tratando de escravo e o que seria acidental. Se tratando de contribuinte e estado, e se comprometendo com a assumida posição do movimento, é afirmativo aqui a relação do escravo com o senhor, toda a contingencialidade do que compreende como escravo seria algo além do que propriamente significaria ser escravo.

Sendo assim então, qual é o motivo para abdicar de uma verdade alegada por vários libertários? Se é uma verdade que é preferível não expor, essa verdade é preferível somente sobre um viés propriamente político, Raphael Lima não chegou a negar a natureza da alegação “A relação do contribuinte com o estado é escravidão”, contudo ele não parece estar comprometido com a mesma.

“E eu me recuso a participar de uma ideia dessas.

Claro, argumente o que quiser. Só não espere que isso dê certo.

Comunicação é sobre ser ouvido e entendido.”

A comunicação como um fim é bem entendível. Mas alego que a gênese da comunicação, inclusive no próprio desenvolvimento das funções de linguagem, cumpre, em gênese, papel expressivo. Em “The Acquisition of Performatives Prior to Speech” é concebido o ato gestual de apontar como ato de fala e vincula-o, no período de transição para a linguagem, como pioneiro dos performativos declarativos e imperativos de linguagem.

Comunicação, como defendida por Bühler, é compreendida tendo funções impressivas e expressivas de linguagem, uma linguagem com função expressiva e conotativa, como presente primeiramente em animais. Somente mais tarde em um ambiente humano surge a função semântica, uma função referencial, contextual. Então comunicação pode abranger ouvir e ser entendido, mas em gênese comunicação se trata de expressão de si, e expressão sobre outros. Somente um processo mais elaborado de comunicação compreende a função semântica, ou referencia de linguagem.[3]

Diante disso, retorno ao ponto de reflexão principal do artigo, trato do posicionamento perante ao que se compromete assumindo-se com determinada visão de mundo. Há posicionamentos úteis que convém adotar quando se trata de pontos magnos em sua visão de mundo, pois na realidade se trataria em ser transparente consigo, sendo portando fidedigno a si, e se comprometer com o todo, não somente com o que é prático ou útil assumir de seu próprio conjunto de crenças.

Em discussões sobre coisas enunciadas, por seja qual for o sujeito, sempre me remeto as noções que Nelson Goodman passa, no prefácio do livro “The Roots of Reference”, de Quine. Ele relata como Quine, seu tutor, fazia questão de deixar claro a necessidade do comprometimento com o que é dito, quase como uma extensão de si para o mundo, do que tu está disposto a assumir e se comprometer. Trazendo uma visão da comunicação sendo propriamente uma expressão do sujeito, essa é uma valiosa reflexão.

Notas

[1] A formulação foi retirada do artigo de Richard Cartwright “Identity and Substitutivity.” Presente em: Identity and Individuation. Ed., by Milton K. Munitz, NYU Press, 1971.

[2] Carnap; The Logical Foundations of Probability, Chicago University Press, 1950, §2

[3] Carl Bühler; Theory of Language, 4. ACTION AND WORK: ACT AND STRUCTURE (C). 2000, 57-80

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s