Traduzido por George Agrippa Soros.

[Retirado de New Perspectives on Political Economy 1 (2): 36-46 (2006). Disponível aqui.]

ABSTRACT: O paradoxo de seguir regras (rule-following paradox) de Wittgenstein tem importantes implicações para dois aspectos da teoria austríaca. Primeiro, ele torna possível conciliar as abordagens misesiana, rothbardiana e hermenêutica da metodologia; segundo, ele fornece uma maneira de defender uma ordem jurídica sem Estado contra a acusação de que tal ordem carece, porém necessita, de um árbitro final.

1. Introdução

O objetivo do “paradoxo de seguir regras” de Ludwig Wittgenstein é diagnosticar um erro sedutor que Wittgenstein vê como subjacente a uma variedade de diferentes erros filosóficos: a suposição implícita da necessidade e/ou possibilidade de uma regra autoaplicável. Uma outra implicação do diagnóstico de Wittgenstein é que a ação humana não é redutível a fenômenos puramente mentalistas ou puramente comportamentais.

Se, como argumentarei, a análise de Wittgenstein está correta, então, argumentarei adicionalmente, o paradoxo de seguir regras tem importantes implicações para dois aspectos da teoria austríaca.

Primeiro, o argumento de Wittgenstein clarifica a relação entre teoria econômica e história econômica – ou seja, entre o método apriorístico da praxeologia e o método interpretativo da timologia, como Ludwig von Mises usa esses termos em Theory and History. Em particular, mostra que, assim como a interpretação timológica envolve categorias praxeológicas, a posse de categorias praxeológicas envolve experiência timológica – assim permitindo uma reconciliação dos insights superficialmente opostos da abordagem kantiana de Mises, da abordagem aristotélica de Murray Rothbard e da abordagem hermenêutica de Don Lavoie à metodologia austríaca.

Segundo, o argumento de Wittgenstein fornece uma maneira de defender a ordem jurídica sem Estado como defendida por Rothbard, Lavoie e outros. Os críticos do anarquismo de livre mercado frequentemente cobram que uma sociedade sem Estado carece, porém necessita, de um “árbitro final” ou “autoridade última” para resolver conflitos; mas o que esses críticos querem dizer com “árbitro final” acaba sendo mais uma versão da “regra autoaplicável” que Wittgenstein mostrou que não é necessária nem possível.

2. O Paradoxo de Seguir Regras

Começarei explicando o paradoxo de seguir regras. Suponha que eu apresente a seguinte sequência de números: 2, 4, 6, 8, 10, 12, 14, 16; e então peço que você continue a série “da mesma maneira”. Estou confiante de que você continuaria com 18, 20, 22, 24, 26 e assim por diante. Mas o que fundamenta essa confiança? Por “da mesma maneira” quero dizer seguindo a mesma regra – essa regra sendo “adicione 2 a cada vez”. Mas essa não é a única regra que poderia gerar minha série inicial. Outra regra que também a geraria é “adicione 2 a cada vez até chegar a 16, então comece a adicionar 3 a cada vez”. Outra ainda é “adicione 2 a cada vez até chegar a 4387, e então comece a adicionar 12 a cada vez”. Ainda outra é “repita os números pares entre 2 e 20 repetidamente”. E ainda outra é “conte de dois até 16, então conte de forma decrescente novamente”. Na verdade, existem infinitas regras que gerariam a sequência inicial 2, 4, 6, 8, 10, 12, 14, 16 e então divergiriam em algum ponto após disso. Como posso saber se você seguirá minha interpretação de “continuar a série da mesma maneira” em vez de alguma outra interpretação?

Pode prontamente parecer que nunca poderei saber isso. Não importa o quanto você continue a série da maneira que eu espero, há sempre alguma regra diferente de “adicionar 2 a cada vez” que poderia explicar isso, e a divergência entre a sua regra e a minha pode surgir no próximo passo. Nenhuma sequência finita de números pode garantir que você está seguindo minha regra em vez de alguma outra.

Claro que posso perguntar qual regra você está seguindo. E talvez você diga: “Oh, estou adicionando 2 a cada vez.” Mas isso realmente ajuda? Como posso saber que você quer dizer a mesma coisa que eu com a frase “adicionar 2 a cada vez”? A única maneira que posso determinar o que você quer dizer com essas palavras é vendo como você as aplica – mas, como acabamos de ver, qualquer teste empírico finito será sempre inconclusivo nesta questão.

Pode-se sugerir que o que quero dizer com as palavras “adicione 2 a cada vez” é o procedimento mais simples de todos, e que todas essas outras possibilidades são mais complicadas. Bem, é certamente o mais simples, dada a minha linguagem e meu esquema conceitual – mas alguma outra regra não poderia ser a mais simples em alguma outra linguagem (talvez a sua) ou em algum outro esquema conceitual (talvez o seu)? Ou, mesmo que minha interpretação seja realmente a mais simples, por que devo presumir que você se preocupa com a simplicidade tanto quanto eu? (Você pode me assegurar que realmente se preocupa com a simplicidade tanto quanto eu, mas isso só me leva de volta à questão de saber se você quer dizer a mesma coisa que eu com a palavra “simplicidade”.)

Isso inicialmente parecerá uma questão cética, uma questão de como podemos ter certeza do que as outras pessoas estão pensando. Mas, na verdade, Wittgenstein não está tentando evidenciar uma moral cética; muito pelo contrário, como veremos. (Na verdade, Wittgenstein é um dos filósofos mais implacavelmente anticéticos da história.) Seus olhos estão voltados para outro jogo. Então que ponto Wittgenstein está tentando fazer?

Bem, continua Wittgenstein, suponha que eu pudesse espiar telepaticamente em sua mente e ver que regra você está seguindo. É tentador pensar que isso resolveria a questão. Mas resolveria? Digamos que eu espie em sua mente e veja o pensamento “adicione 2 a cada vez” inscrito lá em grandes letras ectoplasmáticas brilhantes. O que isso resolve? O que o impede de dizer ou escrever alegremente 10, 12, 14, 16, 50, 40, 10, 12, 14, 16, 50, 40, independentemente das palavras que vejo brilhando em sua mente? O que você quer dizer com o pensamento “adicione 2 a cada vez” depende de como você realmente o aplica na prática, tanto quanto o que você quer dizer com as palavras faladas. Como escreve Wittgenstein:

Eu não posso saber o que ele está planejando em seu coração. Mas suponha que ele sempre escrevesse seus planos; que importância eles teriam? Se, por exemplo, ele nunca agiu de acordo com eles [os seus planos]… Talvez alguém diga: Bem, então eles na verdade não são planos. Mas então eles também não seriam planos se estivessem dentro dele, e olhar para dentro dele não nos serviria de nada.

(Wittgenstein (1982) 234-235; tradução minha.)

Uma vez que vemos que a telepatia não resolveria o problema, podemos ver por que Wittgenstein não está desenvolvendo uma moral cética. Seu interesse principal não está tanto na questão epistemológica de “como podemos saber quais regras as pessoas estão seguindo”, mas na questão metafísica de “o que é seguir uma regra?” Se não é redutível aos meus pensamentos privados ou às minhas ações manifestas (overt actions), o que mais seguir regras poderia ser? Esse é um enigma que surge tanto sobre as suas próprias ações como sobre as dos outros. E não é um enigma cético, porque sei perfeitamente bem qual regra estou seguindo; Wittgenstein nunca nega, e na verdade ele prontamente aceita, que eu sei o que quero dizer com “adicionar 2 a cada vez”. Na verdade, ele está feliz em admitir que eu sei o que você quer dizer com “adicionando 2 a cada vez” também. O objetivo do paradoxo de seguir regras de Wittgenstein não é abalar (shake) nossa confiança de que entendemos uns aos outros; antes, é para nos livrar (shake us free) de uma certa imagem falsa de como é tal entendimento.

O aparente problema com a frase falada “adicione 2 a cada vez” é que ela pode ser interpretada ou aplicada em uma variedade de maneiras diferentes. Quando inicialmente suponho que a telepatia resolveria a questão, o que estou supondo é que há algo em sua mente que não pode ser interpretado ou aplicado de maneiras diferentes, algo que carrega sua própria interpretação ou aplicação consigo. Mas essa suposição é dissolvida pelo experimento mental de Wittgenstein em que espio dentro de sua mente e vejo seu pensamento – mas ainda não sei o que preciso saber.

A moral do paradoxo de seguir regras, então, não é que seguir uma regra seja de alguma forma misterioso ou impossível, mas sim que seguir uma regra teria que ser misterioso ou impossível se envolvesse o que somos tentados a pensar que envolve: uma regra autointerpretável (self-interpreting) ou autoaplicável. Isso é o que eu esperava encontrar espiando telepaticamente dentro de sua mente – mas tudo o que pude encontrar lá foi simplesmente mais coisas que exigiam interpretação e aplicação. Se eu acho que seguir uma regra deve de alguma forma ser fundamentado no fato da regra já ter sua aplicação incorporada nela, então um olhar mais atento sobre seguir regras está fadado a se tornar vertiginoso, porque não existe tal coisa a ser encontrada. Como Wittgenstein coloca, “toda interpretação está pendurada, em conjunto com o interpretado, no ar; ela não lhe serve de suporte”. Mas o que ele infere disso não é que compreender uma regra é impossível, mas sim que “há uma concepção de uma regra que não é uma interpretação; mas que se expressa, de caso em caso da aplicação, no que chamamos de ‘seguir a regra’”. (Wittgenstein. I. 201-202; tradução de João José R. L. de Almeida.)

Resumindo, entender uma regra não é uma questão de possuir algum item mental puramente interior; pois qualquer um desses itens poderia ser aplicado em uma variedade de maneiras. Nem, entretanto, é uma questão de executar alguma sequência finita de movimentos corporais – porque qualquer sequência desse tipo é igualmente compatível com uma variedade de regras diferentes. E, é claro, o entendimento de uma regra não pode ser identificado com alguma combinação particular de um item mental interior e uma sequência finita de comportamento corporal, exatamente pela mesma razão. A esse ponto nos sentimos levados à vertigem porque estamos inclinados a perguntar “o que mais há para seguir uma regra, senão pensamentos interiores, movimentos corporais ou alguma combinação dos dois?” Mas o impulso reducionista de explicar a ação em termos de outra coisa é parte do erro que gera o paradoxo. Uma moral do paradoxo é que a ação é um todo indivisível, do qual pensamentos e movimentos são aspectos, mas não ingredientes separáveis; a ação é mais do que a soma de suas partes. A identidade de meus pensamentos depende de como eu os traduzo em ação – não movimento corporal, mas ação. Como Wittgenstein coloca:

O pensar não é um processo incorpóreo que empresta à fala vida e sentido, e que da fala se poderia separar, como o Maligno retira do chão a sombra de Schlemihl.

(Wittgenstein. I. 339; tradução de João José R. L. de Almeida.)

Como uma jogada de xadrez não consiste somente em que uma peça se movimente assim e assim no tabuleiro, – nem também nos pensamentos e sentimentos do jogador que acompanham a jogada; mas nas circunstâncias daquilo que chamamos: “jogar uma partida de xadrez”, “resolver um problema de xadrez”, e coisas semelhantes.

(Wittgenstein. I. 33; tradução de João José R. L. de Almeida.)

Então, o que me dá o direito de pensar que sei qual regra você está seguindo? Bem, estou pensando em uma certa regra – mas meu pensamento sobre essa regra não é uma questão de palavras brilhantes inscritas em minha mente; em vez disso, a regra sobre a qual meu pensamento se refere depende de como eu expresso esse pensamento em ação. Uma forma de expressar meu pensamento sobre uma regra é segui-la; mas outra é identificar casos em que outros estão seguindo a regra. Como observa Wittgenstein:

Que uso de uma palavra caracteriza essa palavra como sendo uma negação? … Não é uma questão de primeiro termos a negação e então perguntarmos quais leis da lógica devem valer para ela (hold of it) para que possamos usá-la de uma certa maneira. A questão é que usá-la de uma certa maneira é o que queremos significar ao negar com ela.

(Wittgenstein (1989) XX, p.191; tradução minha.)

A capacidade de aplicar um conceito é, portanto, parte de ter o conceito; assim como eu não conto como pensando em uma determinada regra a menos que eu mesmo possa segui-la com sucesso, eu também não conto como pensando em uma determinada regra a menos que eu possa identificar com sucesso o cumprimento dessa regra por outros. (Em cada caso, a aplicação não precisa ser infalível, desde que seja razoavelmente confiável. Minha posse do conceito gato é consistente com o fato de eu ocasionalmente confundir um gato com um cachorro ou vice-versa, mas não com o fato de eu fazê-lo regularmente.) Longe de promover o ceticismo, então, a moral do paradoxo de seguir regras é anticética.

3. Implicações para a Metodologia Austríaca

Quais implicações o paradoxo de seguir regras de Wittgenstein pode ter para a metodologia austríaca? Ludwig von Mises introduziu na teoria austríaca uma distinção entre praxeologia, o método da teoria econômica, e timologia, o método da história econômica. A praxeologia compreende um conjunto de insights a priori sobre a natureza e as implicações da ação humana; a timologia envolve identificar, por meio do método hermenêutico do verstehen, os meios e fins particulares escolhidos em casos particulares. Assim, a praxeologia, por exemplo, estabelece as leis que governam o câmbio monetário (monetary exchange), enquanto a timologia determina se uma interação particular é de fato um caso de câmbio monetário. Para Mises, a timologia pressupõe a praxeologia, uma vez que é necessário possuir tais conceitos como meios e fins antes de aplicá-los. A praxeologia, ao contrário, não pressupõe a timologia; Mises mantem, em termos kantianos, que derivamos nossas categorias praxeológicas não da experiência, mas da estrutura inata da mente humana.

O status preciso e a relação entre a praxeologia e a timologia têm sido debatidos nos círculos austríacos desde então. Por exemplo, Murray Rothbard argumentou, em termos aristotélicos, que insights praxeológicos não derivam da estrutura inata da mente, mas da experiência, e que é a priori apenas relativamente, sendo anterior a tipos de experiência mais estreitamente empíricos. E Don Lavoie, invocando Gadamer, sugeriu que a praxeologia depende do verstehen hermenêutico tanto quanto a timologia depende[1]. E assim por diante.

A distinção de Mises levanta outras questões epistemológicas. Os críticos de Mises frequentemente parecem supor que ele considerava a aplicação da teoria econômica uma questão a priori; como acabamos de ver, ele não a considerava. Mas, dado que a aplicação é timológica em vez de a priori, pode-se se preocupar como a economia pode reivindicar qualquer precisão científica. Pois embora delinear as relações entre os conceitos da ação possa ser uma questão de certeza apodítica, pode parecer que alguém poderia possuir a total coleção do conhecimento praxeológico e ainda assim não ter a menor noção de sua aplicação e ser incapaz de explicar quaisquer eventos reais. Pois se eu sou praxeologicamente competente (mighty), mas timologicamente incompetente (weak), posso ser capaz de escrever tomos pesados sobre, digamos, teoria monetária, e ainda assim ser terrivelmente incapaz de reconhecer câmbios monetários na vida real – caso este em que eu seria incapaz de tentar explicar eventos como depressões e hiperinflações. Assim, pode parecer que a praxeologia é inútil para explicar qualquer coisa a menos que ela seja complementada pela timologia, que por sua vez parece exigir algum talento especial (special knack) de intuição, cuja presença ou ausência parece mais uma questão de sorte do que de insight científico.

É aqui que o paradoxo de seguir regras de Wittgenstein se torna relevante. Uma das morais desse paradoxo é que não contamos como possuidores de um conceito a menos que sejamos – não perfeitamente confiáveis, mas – razoavelmente confiáveis em aplicá-lo. Segue-se que o cenário recém-imaginado de proficiência praxeológica combinada com inaptidão timológica não é uma possibilidade real; não contamos como possuidores de conceitos praxeológicos, exceto na medida em que geralmente somos capazes de aplicá-los com precisão. Compreender uma lei econômica não é, não pode ser, um episódio mental privado puramente interior sem implicações para nossa conduta externa – porque essa concepção do mental foi exposta como incoerente.

Segue-se ademais que a relação de dependência entre praxeologia e timologia deve ser bidirecional em vez de unidirecional. Não podemos ter timologia sem praxeologia, porque não podemos aplicar conceitos que não possuímos; mas igualmente não podemos ter praxeologia sem timologia, porque não podemos possuir conceitos que somos incapazes de aplicar. Nesse sentido, Rothbard e Lavoie estão corretos em sustentar, contra Mises, que o insight praxeológico requer algum tipo de experiência; mas Mises está igualmente correto ao insistir que o insight praxeológico não é derivado da experiência – uma vez que a experiência relevante já envolve categorias praxeológicas. Entendimento praxeológico e timológico surgem juntos; eles são simplesmente aspectos – não componentes separáveis – do todo único e indissolúvel que é a experiência humana racional (intelligent).[2]

4. Implicações para a Teoria Política Austríaca

Por fim, voltemos às implicações do paradoxo de seguir regras para a teoria política austríaca. Muitos austríacos – incluindo Rothbard, Lavoie, Hans Hoppe, Walter Block, Ed Stringham e outros[3] – defenderam uma ordem jurídica sem Estado, ou “anarquia de livre mercado”, na qual tais serviços tradicionalmente governamentais como proteção de direitos e adjudicação de disputas são fornecidas por meio da competição do mercado, sem autoridade central monopolística. Uma crítica frequente a tal arranjo é que ele carece de autoridade final para resolver disputas. Sem tal autoridade, o que garante que as divergências serão resolvidas pacificamente em vez de desencadear conflitos violentos? E como pode uma disputa ter um fim se não houver um tribunal de último recurso, além do qual nenhum outro recurso é possível?[4]

A resposta adequada a essas perguntas, creio eu, é perguntar o que garante a resolução pacífica das disputas sob um governo? Suponha que você e eu tenhamos uma disputa e o tribunal decida a seu favor. Posso recorrer a decisão a um tribunal superior; mas suponha que eu chegue ao mais alto tribunal de recurso e ele também decida contra mim. É esse o fim da questão? Pode ser ou não, dependendo do que eu escolha fazer a seguir. Posso fazer uma petição ao legislativo para passar uma lei revertendo a decisão do tribunal ou para nomear juízes mais amigáveis ao meu ponto de vista; ou posso tentar fomentar uma revolução para derrubar o governo. Existem muitas opções disponíveis para mim; nesse sentido, nenhum sistema jurídico, seja governamental ou anárquico, pode garantir uma finalidade jurídica absoluta. Certamente, muitas das minhas opções envolvem muito trabalho duro e provavelmente não terão sucesso, então provavelmente não vou me preocupar em segui-las; nesse sentido, os governos podem fornecer uma finalidade jurídica razoavelmente confiável – mas agora não há razão para supor que as anarquias não possam fazer isso também.

Os defensores do governo frequentemente reclamam que, sob a anarquia, os prestadores de serviços jurídicos não estão sujeitos à limitação jurídica, ao passo que, sob um governo constitucional, o monopólio do prestador de serviços jurídicos é limitado pela constituição. Mas, presumivelmente, um mero documento escrito não é suficiente para limitar o poder do governo; o que é necessário são estruturas institucionais reais. Mas esses tipos de restrições constitucionais, como freios e contrapesos e divisão de poderes, não existem por si só, como limitações externas à sociedade como um todo; pelo contrário, eles existem apenas na medida em que são mantidos em existência por seres humanos agindo de maneiras sistemáticas. Portanto, eles estão tão disponíveis sob a anarquia quanto sob o governo – mais disponíveis [na anarquia], na verdade, já que um sistema que permite o livre ingresso de serviços jurídicos no mercado obviamente terá freios e contrapesos mais eficazes do que um sistema que monopoliza tais serviços. O anarquista Gustav Landauer certa vez escreveu: “O estado é uma relação entre seres humanos, uma maneira pela qual as pessoas se relacionam; e alguém o destrói entrando em outros relacionamentos, comportando-se de maneira diferente uns dos outros”.[5] Quando os hobbesianos se preocupam que as pessoas não serão capazes de cooperar sem um governo, eles esquecem que o governo não é algum tipo de robô automático situado do lado de fora da ordem social a qual ele serve; sua existência também depende de uma cooperação contínua, tanto dos membros do governo quanto da população que ele governa.

O crítico da anarquia caiu portanto no mesmo erro que Wittgenstein diagnostica em seu paradoxo de seguir regras: o erro de supor a possibilidade, e/ou a necessidade, de uma regra autoaplicável. Assim como alguém pode inicialmente ser lançado em vertigem intelectual pela falha ao localizar algum item mental que por si só garanta seu próprio significado independentemente de como alguém o aplique na prática, o crítico da anarquia é também lançado em vertigem ao pensar em um sistema jurídico sem qualquer componente que por si só garanta a ordem social independentemente de como ela é aplicada pelos agentes humanos. Assim como é tentador pensar que minha compreensão de uma regra é algo independente de minhas ações, algo que me faz comportar de uma certa maneira, também é igualmente tentador pensar que o sistema jurídico de uma sociedade é algo externo a essa sociedade que o torna ordenado. Mas, como mostra o paradoxo de seguir regras, não poderia haver tal entidade autoaplicável; e como os indivíduos conseguem na maior parte do tempo seguir as regras muito bem – e como as sociedades igualmente conseguem na maior parte do tempo manter a ordem muito bem – a ausência de tal entidade autoaplicável não é problema algum.

Notas

[1] Veja Mises 1986 e 1995; Rothbard 1997; e Lavoie 1986.

[2] Para uma discussão mais aprofundada das implicações das ideias de Wittgenstein para a metodologia austríaca, veja Long (2004)

[3] Veja, por exemplo, Rothbard 1978, Lavoie 1993, Hoppe 1999, Block 2005, e Stringham 2006.

[4] Veja, por exemplo, Bidinotto (1994)

[5] “Weak Statesmen, Weaker People,” Der Sozialist, 1910; citado em Graham (2005), p. 165; tradução minha.

Bibliografia

Bidinotto, Robert J. 1994. “The Contradiction in Anarchism.” Published online at: http://rous.redbarn.org/objectivism/Writing/RobertBidinotto/ContradictionInAnarchism.html

Block, Walter. 2005. “Governmental Inevitability: Reply to Hokcombe.” Journal of Libertarian Studies 19, no. 3 (Summer), pp. 71-93. Published online at: http://mises.org/journals/jls/19_3/19_3_4.pdf

Graham, Robert, ed. 2005. Anarchism: A Documentary History of Libertarian Ideas. Volume One: From Anarchy to Anarchism (300 CE to 1939) (Montreal: Black RoseBooks, 2005).

Hoppe, Hans-Hermann. 1999. “The Private Production of Defense.” Journal of Libertarian Studies 14, no. 1 (Winter), pp. 27-52. Published online at: http://mises.org/journals/jls/14_1/14_1_2.pdf

Lavoie, Don. 1993. “Democracy, Markets, and the Legal Order: Notes on the Nature of Politics in a Radically Liberal Society,” Social Philosophy and Policy 10, no. 2 (Summer), pp. 103-120.

Lavoie, Don. 1986. “Euclideanism versus Hermeneutics: A Reinterpretation of Misesian Apriorism.” In Israel M. Kirzner, ed. Subjectivism, Intelligibility, and Economic Understanding: Essays in Honor of Ludwig M. Lachmann on His Eightieth Birthday (London: Macmillan, 1986), pp. 192-210.

Long, Roderick T. 2004. “Anti-Psychologism in Economics: Wittgenstein and Mises.” Review of Austrian Economics 17, no. 4, pp. 345-369. Published online at: http://www.gmu.edu/rae/archives/VOL17_4_2004/3_long.pdf

Mises, Ludwig von. 1996. Human Action: A Treatise on Economics, 4th rev. ed (San Francisco: Fox & Wilkes).

Mises, Ludwig von. 1985. Theory and History: An Interpretation of Social and Economic Evolution (Auburn, Alabama: Ludwig von Mises Institute).

Rothbard, Murray N. 1997. “Praxeology: The Methodology of Austrian Economics.” In Rothbard, The Logic of Action I: Method, Money, and the Austrian School (Cheltenham UK: Edward Elgar, 1997), pp. 58-77.

Rothbard, Murray N. 1978. For a New Liberty: The Libertarian Manifesto, rev. ed. (New York: Macmillan).

Stringham, Edward, ed. 2006. Anarchy, State, and Public Choice (Cheltenham UK: Edward Elgar).

Wittgenstein, Ludwig. 1989. Wittgenstein’s Lectures on the Foundations of Mathematics: Cambridge, 1939; From the Notes of R. G. Bosanquet, Norman Malcolm, Rush Rhees, and Yorick Smithies. ed. Cora Diamond (Chicago: University of ChicagoPress).

Wittgenstein, Ludwig. 1982. Last Writings on the Philosophy of Psychology. Volume I: Preliminary Studies for Part II of Philosophical Investigations. Eds. G. H. von Wright,Heikki Nyman; trans. C. G. Luckhardt, Maximilian A. E. Aue (Chicago: University of Chicago Press).

Wittgenstein, Ludwig. 1958. Philosophical Investigations. 2nd ed. Trans. G. E. M. Anscombe (Oxford: Blackwell); Wittgenstein, Ludwig. Investigações Filosóficas. Trans. João José R. L. de Almeida (Wittgenstein Translations).

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