A Crítica do Monólogo à Ética Argumentativa Hoppeana

por George Agrippa Soros

Duas críticas vêm assombrando alguns hoppeanos e, dado o momento, não foram formalmente respondidas. A primeira delas é a famosa objeção do Nicholas Ferreira (ou dúvida do Zap), um questionamento à validade da contradição performativa – em detrimento de uma contradição lógica – e da propriedade privada – dado que seu reconhecimento na argumentação nada diz sobre sua validade. A segunda é a crítica de que é possível justificar algo fora da argumentação, ou a crítica do monólogo (uma objeção gringa, mas também exposta aqui pelo Rian Lobato e, principalmente, pelo Marxx). Eu vejo, nessa segunda, resumidamente, um problema de escrita e coerência em Hoppe. Ela se dá, provavelmente, pela inconsistência da definição da palavra “justificar” ou ainda pelo reducionismo da ação comunicativa. Irei explicá-la brevemente neste texto.

Primeiramente, uma das premissas iniciais da ética argumentativa é que a argumentação é a única maneira de se justificar uma proposição. Isso fica explícito nos seguintes trechos:

However, argumentation itself reveals the possibility that argumentation presupposes action because validity claims can only be explicitly discussed in the course of an argumentation if the individuals doing so already know what it means to act and have knowledge implied in action.

(HOPPE, Hans. Ethics and Economics of Private Property [EEPP], p. 280)

Only with argumentation does the idea of validity and truth emerge and by no means only the idea of truth in ethical matters but of truth in general. Only within argumentation are truth claims of any kind made, and it is only in the course of argumentation that truth claims are decided.

(HOPPE, Hans. EEPP, p. 334)

There is then, trivially enough, no way of justifying anything unless it is a justification by means of propositional exchanges and arguments.

(HOPPE, Hans. EEPP, p. 341-42)

Que: Todas as afirmações de verdade – todas as afirmações de que uma dada proposição é verdadeira, falsa, indeterminada ou indecidível ou que um argumento é válido e completo ou não – são afirmadas, justificadas e decididas no curso de uma argumentação.

(HOPPE, Hans. Sobre a Ética da Argumentação)

Dessa forma, continua Hoppe, a argumentação possui, como condição necessária, o reconhecimento da propriedade privada (sendo, assim, inegável, dado que sua negação incorreria em uma contradição dialética). Veja, nas palavras de Hoppe, a definição e o papel da argumentação:

First, it must be noted that the question of what is just or unjust — or for that matter the even more general question of what is a valid proposition and what is not — only arises insofar as I am, and others are, capable of propositional exchanges, i.e., of argumentation.

(HOPPE, Hans. EEPP, p. 341)

Agora, argumentar nunca se baseia apenas em proposições flutuando livremente que alegam ser verdadeiras. Antes, também a argumentação é sempre uma atividade. Mas considerando que as alegações de verdade são levantadas e decididas numa argumentação e que a argumentação, além de tudo o que é dito durante o seu desenvolvimento, é um assunto prático, deduz-se que as normas intersubjetivamente significativas que devem existir – especificamente aquelas que realizam alguma ação numa argumentação – tem um status cognitivo especial em que elas são pré-condições práticas de objetividade e verdade.

(HOPPE, Hans. Uma Teoria do Socialismo e do Capitalismo [UTSC], p. 126)

Dada a definição de argumentação [atividade de troca proposicional], esbarramos no problema de que Hoppe não define “justificar”, mas somente em uma definição circular, utilizando o mesmo termo no explanans e explanandum: “Justificar significa justificar sem ter que depender de coerção.” (UTSC, p. 130, ou EEPP, p. 318) Ignorando esse problema e considerando que o autor utilizou uma definição comum de “justificar” – algo como “demonstrar (o que pressupõe uma atividade entre dois sujeitos ou mais) a validade de um argumento” – é possível dizer que há a possibilidade de contradizer a premissa inicial que dá validade à sua ética. E isso ocorre mesmo na definição de “justificar” que Fhoer utilizou em sua live [alegar o valor verdade de uma proposição].

Isso porque é possível que uma justificativa se dê em uma relação intersubjetiva (assim como a argumentação), mas não necessariamente em uma troca de proposições (o que difere da argumentação na definição de Hoppe), ou seja, em que somente um indivíduo (emissor) demonstra ativamente a validade de uma proposição, enquanto o outro (receptor) passivamente compreende. Esse caso não pode ser classificado como uma argumentação na definição hoppeana por não haver, de fato, uma troca de proposições entre os indivíduos.

Para ilustrar, utilizarei o exemplo do Igor Angélico: Russell (e Whitehead), no Principia Mathematica, prova que 1+1 é igual a 2; isso se dá em um livro, ou seja, em que apenas um indivíduo (autor) expõe proposições, enquanto o outro (leitor) apenas as compreende, sem ativamente propor nada. O mesmo se daria em um monólogo (como exposto anteriormente), assim como em uma palestra: um indivíduo (emissor) ativamente expõe proposições, enquanto o outro (receptor) passivamente as compreende.

Parte da prova de que 1+1=2, no Principia Mathematica.

Mesmo neste artigo estou justificando, isto é, demonstrando a validade do dado conjunto de proposições fora de um argumentação. E, assim, fica explícita uma inconsistência na ética argumentativa, pois, como Hoppe explica, o reconhecimento da propriedade privada é uma condição implícita da argumentação; e, porém, como demonstrado anteriormente, é possível uma justificação fora do curso da argumentação. A sua premissa inicial de que toda justificativa se dá em uma argumentação, portanto, é inválida e abre possíveis brechas para a justificativa de uma norma diferente da propriedade privada sem cair em contradição performativa.

É interessante notar que mesmo Hoppe, em seus livros e artigos, propôs e tentou justificar uma ética fora de uma argumentação. Aliás, levaria a um absurdo considerar a atividade de leitura como uma argumentação entre o leitor e o autor. É possível provar isso (além de maneira direta, como já foi exposto anteriormente) assumindo, em hipótese, que a leitura seria uma argumentação e chegando a uma contradição (ou absurdo, do termo reductio ad absurdum). Uma das contradições que se pode apontar é o fato de que, nessa hipótese, haveria a possibilidade de uma argumentação com indivíduos mortos ou, no caso de não considerá-los indivíduos (por estarem mortos, isentos da essência individual), de uma argumentação com apenas um indivíduo (o leitor), sem intersubjetividade, que contradiz a definição utilizada.

Alguém poderia dizer que argumentar que você pode justificar algo fora de uma argumentação é uma contradição dialética, porque você estaria, justamente, utilizando o meio da argumentação para negar que só através dela se pode justificar algo. Essa foi uma das objeções que fiz quando estava defendendo a ética argumentativa da crítica do monólogo (sendo também a defesa que Hoppe faz em seus livros). Isso, entretanto, não é uma contradição dialética, e é um non sequitur afirmá-lo. Alegar em uma argumentação que há maneiras de se justificar além da argumentação não é pragmaticamente inválido, porque a negação particular de nosso discurso [de que há uma justificação que não é argumentação, o monólogo] não nega a afirmação particular de nossa ação [de que há uma justificação que é argumentação, dado que, em hipótese, estaríamos justificando em uma argumentação]. Repetindo, não há contradição dialética aqui. Para fins ilustrativos, utilizarei a tábua das oposições da lógica aristotélica aplicada a essa questão:

Tábua das oposições para a questão da justificação e argumentação.

A confusão em questão se dá ao considerar proposições subcontrárias como contraditórias. No caso, nossa ação de justificar em uma argumentação demonstra que “alguma justificação é argumentação” (canto inferior esquerdo da tábua), sendo sua negação (o que as torna contraditórias) “nenhuma justificação é argumentação” (superior esquerdo). Entretanto, nunca afirmamos que “nenhuma justificação é argumentação” (e, portanto, nunca caímos em contradição); nossa afirmação foi que “alguma justificação não é argumentação” (inferior direito), a saber, o monólogo. Assim, as proposições referentes a nossa ação e ao nosso discurso são subcontrárias (relação entre o canto inferior esquerdo e inferior direito), e não contraditórias. Conclui-se que essa objeção é fruto de uma confusão entre as relações lógicas entre proposições.

Outra objeção – que é, na verdade, um espantalho – seria de que essa crítica é a mesma do Alexandre Porto, isto é, de que é possível argumentar sozinho. Evidentemente, é impossível argumentar (que, por definição, é entre sujeitos diferentes) algo para si mesmo, o que invalida o argumento do Porto, mas um monólogo (ou uma palestra, um livro, etc.) é uma atividade entre dois sujeitos. É necessário um emissor ativamente alegando proposições e um receptor para (obviamente) recebê-las e possivelmente compreendê-las. Dessa forma, um monólogo não se trata de argumentar sozinho. É importante lembrar, entretanto, que o argumento do Porto estaria correto se fosse direcionado à possibilidade de justificar sozinho, dada a incoerência da definição de “justificar”. O Nicholas Ferreira, vulgo Zap, já desenvolveu e expôs este ponto em seu blog.

Assim, uma das premissas de Hoppe realmente é inconsistente. Entretanto, veja que talvez tal falha não derrube a ética argumentativa em si; seria necessário, para isso, analisar as condições e implicações que fazem da argumentação uma atividade de necessário reconhecimento da propriedade privada e compará-las a esse caso do monólogo. E, apesar de eu particularmente ter chegado a uma conclusão, não a exporei aqui por inteiro pois o intuito desse artigo não é julgar se a ética argumentativa está, de fato, equivocada por inteiro. Mas, resumidamente, concordo com Frank van Dun:

Only reason can justify – and that reason is not manifested in a monologue of one side’s arguments, but in a dialogue, where arguments and counterarguments can be evaluated in an open confrontation. Thus, it was taken for granted that a court ought to hear all the parties involved in a dispute and give them an opportunity to justify or at least excuse their actions (“Audi et alteram partem”); that judges should arrive at the truth of the matter (in their verdicts, that is, vera dicta or truth-sayings) solely on the basis of “the merits of the case” as they emerge from the accounts of reliable witnesses and the arguments presented in court by the parties to the conflict; and that these verdicts should have normative authority as long as they are not shown to be wrong (that is, not vera dicta after all).

(DUN, Frank. Argumentation Ethics and the Philosophy of Freedom, p. 12)

Pessoalmente, não me autointitulo hoppeano, apesar de considerar diversas das suas conclusões corretas. Em todo caso, acredito que autores como o citado Frank van Dun e Stephan Kinsella possam remodelar (ou complementar) o argumento ético hoppeano.

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