Uma Adição ao Anarco-dimensionalismo

por George Cornelius Agrippa Soros
Disponível também em PDF.

Introdução

Durante a leitura do principal artigo de EvilCorp[1], me deparei com problemas na sua formulação. A partir de deduções axiomáticas e abstrações da dimensão escassa em que vivemos, a única conclusão lógica, para Evil (e para mim), é o anarco-dimensionalismo. Entretanto, ele não elucida o porquê da felicidade ser diretamente relacionada à prevenção de conflitos, cometendo um non sequitur em sua conclusão ao dizer que, como buscamos a felicidade, também buscamos a prevenção dos conflitos.

O anarco-dimensionalismo eviliano

O seu argumento parte da premissa inicial que vivemos em um mundo de escassez, onde há a existência de meios limitados às dimensões, tanto físicas, quanto a temporal. Na definição do economista austríaco Ludwig von Mises, meios escassos são insuficientes para alcançar todos os objetivos pretendidos pelo homem.[2] Tal asserção é autoevidente.

É esclarecido, além disso, o axioma da ação humana, desenvolvido também por Mises, em que indivíduos agem, ou seja, utilizam meios para obterem fins.[3] O fim, em todos casos, é sempre um estado de maior conforto que o anterior, o que resume-se na felicidade do indivíduo.[4] A negação desse axioma resultaria em uma contradição performativa, dado que o indivíduo estaria justamente utilizando, no mínimo, o seu corpo como meio para atingir um estado de maior conforto ao negá-la.

Sendo um conflito a impossibilidade física da utilização de um meio escasso por indivíduos com fins excludentes simultaneamente, é evidente que a escassez do meio é justamente a origem dos conflitos na sociedade. Assim, tem-se que a única conclusão lógica para a solução dos conflitos é uma anarquia dimensionalista, isto é, uma organização de sociedade anárquica em uma dimensão além das de escassez em que vivemos atualmente. Essa conclusão, entretanto, contém um non sequitur.

O salto lógico do conflito-felicidade

Sabe-se que não há parâmetro objetivo algum para definir felicidade para o indivíduo, sendo este sujeito, portanto, à concepção subjetiva de cada ser pensante no mundo. Para um masoquista, por exemplo, o estado de maior conforto pode ser relativo à dor, o que pode não ser para outros indivíduos (e não é, ao menos, para mim). Resumidamente, felicidade é subjetiva.[5]

Isso implica na possibilidade de existência de indivíduos que considerem o conflito como fim necessário para a sua felicidade, tornando a infelicidade dos conflitos o seu estado de maior conforto. Essa possibilidade desmantelaria todo o argumento dimensional, pois demonstraria a aparente verdade que nem sempre o anarco-dimensionalismo é a conclusão lógica do indivíduo.

Evil já pressupõe tal objeção como equivocada sem antes prová-la, o que torna a sua conclusão um salto lógico. Para que o anarco-dimensionalismo seja irrefutável, é necessário provar o contrário. No próximo item irei provar que tal possibilidade é transcendentalmente falsa.

A resolução transcendental

Para prová-la errada, é necessário retornar aos escritos de Karl-Otto Apel e Hans-Hermann Hoppe. Primeiramente, as proposições pragmáticas-transcendentais são as que não podem ser negadas sem resultar em uma contradição performativa ou uma petição de princípio.[6] Hoppe também as utiliza na sua teoria da ética argumentativa, nos princípios da qual se baseará essa resolução.

Em toda e qualquer tentativa de justificar proposições (sendo a argumentação o único meio possível para isso[7]), é necessário que utilizemos o nosso corpo como meio (escasso) como em qualquer ação humana. Além disso, é condição formal que ambos indivíduos concordem na existência de uma discordância de ideias. Dessa forma, eles, ao engajarem na argumentação, buscam um fim mútuo, que é a resolução dessa discordância, pressupondo uma ação livre de conflitos, pois deixaria de ser uma argumentação no momento que se desse outro fim a essa relação intersubjetiva.[8]

Assim, o indivíduo não pode justificar o conflito sem cair em uma contradição performativa[8], o que torna essa conclusão pragmático-transcendental. E, como todo fim do indivíduo é a busca da felicidade e este não pode justificar a busca do conflito, tem-se que toda felicidade é consequência direta da resolução (e não somente prevenção) de conflitos. Ademais, a negação disso resulta em uma contradição performativa, tanto pelo axioma da ação humana, quanto pela pragmática-transcendental da comunicação, sendo, portanto, irrefutável.

Um passo além da ética hoppeana

É importante demonstrar as diferença das conclusões da ética da propriedade privada e do anarco-dimensionalismo, mesmo que tenham a mesma abordagem e meio argumentativo. A diferença substancial entre elas é que, resumidamente, a teoria de Hoppe é pragmática, referente à realidade atual (e à ética), enquanto o anarco-dimensionalismo transcende tal plano e conclui até, de fato, as últimas consequências.

Isso não se trata de um problema da ética argumentativa hoppeana, mas puramente da finalidade dela. A ética é normativa, isto é, ela é referente ao que deve ser feito na realidade em que estamos inseridos, e não trata da dimensão além que devemos buscar. Veja como Hoppe aborda essa questão:

“A propriedade é, dessa forma, um conceito normativo, concebido para tornar possível uma interação livre de conflitos pela estipulação de regras de conduta (normas) mútuas e vinculativas em relação aos recursos escassos.”[9]

Hoppe realmente demonstra que há um dever a todos indivíduos comunicantes, porém há, ainda assim, um dever que transcende as dimensões físicas e a dimensão temporal. O dever transcendente, como já foi demonstrado anteriormente, é o de que todos os fins sejam atingidos, ou seja, que nenhum fim seja frustrado e que o conforto pleno seja atingido. Somente outra dimensão pode nos fornecer isso e o anarco-dimensionalismo é justamente a sua busca.

Considerações finais

Agora, a conclusão de Evil é devidamente justificada e segue das premissas. Somente a busca de uma sociedade sem o problema dos conflitos é justificável. Dado que conflitos são resultado da condição de escassez de meios, o anarco-dimensionalismo, a anarquia de uma dimensão livre de escassez e conflitos, é a única conclusão lógica possível.

Apesar da sólida conclusão, alguns diriam que a realidade final do anarco-dimensionalismo é o Jardim do Éden, das escrituras bíblicas, ou mesmo a ilha Utopia, do livro de Thomas More, que deu significado à palavra. A questão é que essas visões também são equivocadas.

O Jardim do Éden possuia harmonia absoluta, abundância de recursos e paz. Entretanto, ainda assim poderiam haver conflitos, pois mesmo esse local sagrado era sujeito à dimensão temporal, ainda que houvesse infinitude de recursos. Além disso, Hoppe também aponta que, ainda assim, havia o corpo como recurso escasso.[9] Pode-se dizer, portanto, que mesmo no Éden havia o dever de buscar a dimensão livre de conflitos (e, talvez, foi correto ter provado do fruto proibido).

A ilha Utopia, por outro lado, nem abundância de recursos possui. É, simplesmente, uma ilha com regras impositivas e arbitrárias que se mantêm pelo respaldo de uma enorme repressão violenta e autoritária. Essa ilha é o caminho contrário ao dever transcendente ou de qualquer caminho ético justificável. Tal sociedade nem mesmo a ética libertária segue, seria pura tolice considerá-la livre de conflitos. E, mesmo se a seguisse, ainda haveria o dever dimensional devido a dimensão de escassez.

Assim, desfazendo algumas concepções equivocadas, concluo que não se pode negar o dever transcendente. O anarco-dimensionalismo se mantêm incontestável.

Notas

[1] EVILCORP. O que é o Anarco Dimensionalismo? Disponível em: <http://www.anarcodimensionalismo.tk/o-que-e-o-anarco-dimensionalismo/>.

[2] MISES, Ludwig. Ação Humana (São Paulo, Instituto Mises Brasil, 2010, 3.1ª Edição), p. 126

[3] Ibid., p. 37

[4] Ibid., p. 38

[5] Ibid., p. 39

[6] OLIVEIRA, Manfred. Dialética hoje. Lógica, metafísica e historicidade (São Paulo, Loyola, 2004a), p. 384

[7] HOPPE, Hans. Uma Teoria Sobre Socialismo e Capitalismo (São Paulo, Instituto Mises Brasil, 2013, 2ª Edição), p. 126

[8] Ibid., p. 129

[9] Ibid., p. 22

Imagem de capa de autoria de EvilCorp.

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